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29 de maio de 2011

GÊNESIS - A CRIAÇÃO - O Mal

5. O MAL
Há um fato contraditório que aparece inesperadamente na História da Criação e retrata uma presença contumaz em toda a História Humana, bem como na vida particular ou social de cada um: é a presença do mal. Da mesma forma que a consciência da morte revela a vida, a consciência do mal revela o bem. Busca o homem ansiosamente conhecer e compreender a causa, a natureza e a finalidade do mal. Infrutiferamente, porém. Busca e quer erradicá-lo, ao encontro de um bem total. Para isso precisa conhecer o bem e o mal, estabelecendo as suas causas, suas naturezas e seus fins. O mal é a expressão do sofrimento, da dor e da morte, em contraste com o bem significado na felicidade, na paz e na vida. O mal é a ineficácia do bem, o desordenamento da Criação e sua conseqüente esterilidade. É a volta ao estado anterior à ação criadora de Deus, é o deserto, o caos:
"... - ele é Deus, o que formou a terra e a fez, ele a estabeleceu; não a criou como um deserto, antes formou-a para ser habitada" (Is 45,18).



Para o hagiógrafo, da mesma forma que com a origem, o problema é simples e teve como fonte a atitude do Homem em face ao seu relacionamento com Deus. Relacionamento elevado à intimidade, familiaridade e comunhão que em determinado momento sujeitou o Homem à dependência de um preceito. Melhor seria dizer o "aviso" de que determinada forma de comportamento teria como conseqüência o advento da "morte". Foi no instante em que Deus dotou o Homem do "livre-arbítrio" e o instituiu. Mostrou-lhe uma situação e deixou-a a sua livre opção, mostrando-lhe o que lhe adviria caso não a observasse. Deus criou um ser livre, não um robô. Por inexistir um tom imperativo positivo vê-se que não se trata de uma ordem, e o "podes" bem como o uso de uma negativa amenizam e facilitam por demais a opção, como se fosse dito que "a morte vai vigorar se você a facultar":
"Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer" (Gn 2,16-17).


Analisando melhor o trecho vê-se que não se trata de uma "árvore do bem e do mal", mas de uma "árvore do CONHECIMENTO do bem e do mal". O "podes" denota a plena liberdade de escolha do Homem; também, a "árvore" caracteriza uma "fonte", a origem onde se forma o fruto, qual seja, a "conseqüência" anunciada: A MORTE. Depositava-se só e exclusivamente nas mãos do Homem a possibilidade da existência da morte, com todas as suas conseqüências. E, o que é a morte e o que ela representa? Para nós, que já vivemos no seu império, a experiência nos dita que é o fim de uma existência física. Mas, qual seria o significado dela para aquele primeiro Homem, considerando-se o aspecto geral antes e depois da sua presença na Criação? Para aquele primeiro Homem que a desconhecia, como lhe teria soado, ou como lhe fora explicada, já que sem conhecimento prévio inexiste a responsabilidade pessoal? Como lhe seria a Criação sem ela? Voltando-se abstratamente àquele tempo vejamos como se dariam os fatos sem a morte. Ora, inexistindo a morte ninguém morreria. Ninguém perderia a vida por doença, por causas fortuitas, de fome ou por qualquer outra causa. Não haveria a necessidade da luta pela sobrevivência, a disputa, as contendas, o ciúme, a inveja e outros males não apareceriam, bem como a infelicidade humana de tudo isso decorrente, e o sofrimento.
    Percebe-se num relance que a morte é a convergência de todos os males, e ao homem foi dada a oportunidade de acolhê-la ou rechaçá-la. Só se pode dizer que violou o aviso e a trouxe, introduziu-a na Criação que a desconhecia. Somente onde há a possibilidade de escolha consciente aparece a liberdade e somente onde há a liberdade pode haver um relacionamento de duas ou mais pessoas, em íntima comunhão de vidas e de tarefas. O Homem é "imagem e semelhança de Deus", não um teleguiado seu, donde ser necessariamente responsável e consciente de seus atos. E, para a eficácia dessa responsabilidade e consciência, deveria ter tido o mais amplo e pleno conhecimento de tudo, e de todas as conseqüências de sua livre escolha. A simbologia de toda a narração nada mais revela que tudo isso, bem como essa opção livre a qual somente se percebe num vislumbre, quase intuitivo, o que evidencia a inteligência sagaz do narrador, procurando traduzir para seus semelhantes fatos que não foram presenciados por ninguém. A começar pelo nome dela: a "árvore do conhecimento do bem e do mal", que traduz numa conotação especial o esforço e a habilidade com que impede qualquer vinculação de Deus com a existência do mal. Coloca-a como a fonte ("árvore") de uma experiência sensível, que passará a ser de seu "conhecimento", a "morte". Principalmente porque ali no Paraíso o Homem só "conhecia" o BEM, e ao fazer ingressar no mundo a "morte", "conheceria" a diferença entre aquele bem de que gozava e o mal que adviria da morte, agora já possível. É a figura do "conhecer" bíblico, fruto de uma percepção sensível em si mesmo. Assim exprime que Deus não é o autor do mal, mas apenas e tão somente do bem.
    Deus dispusera ali também no Éden a "árvore da vida", de que foi o Homem afastado ao optar pela "do conhecimento do bem e do mal", que lhe seria um dom perene (Gn 3,22). O Homem, por algum motivo que foge ao nosso alcance, preferiu o caminho da dor, do sofrimento e da morte ao da Vida Eterna, assim de imediato e num relance. "Conhecemos" o resultado dessa infeliz opção, cuja triste iniciativa é atribuída à mulher, EVA. A causa vem colorida com a expressão tentadora de que "sereis como deuses" (Gn 3,5):
"A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: ‘Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do Jardim’? A mulher respondeu à serpente: ‘Nós podemos comer do fruto das árvores do Jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do Jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, a fim de não morrer’. A serpente disse então à mulher: ‘Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal" (Gn 3,1-5).


Alguns detalhes dessa narrativa merecem uma análise mais elucidativa, por causa da farta simbologia empregada. Em primeiro lugar, em virtude da responsabilidade do Homem pela "guarda" do jardim, a serpente, por ser "o mais astuto dos animais do campo", não poderia estar ali. Não se pode culpar apenas a serpente pela queda, eis que a sua responsabilidade se prende ao fato de dar asas à inclinação humana já alojada no íntimo de Eva. Vê-se isso da facilidade de íntimo colóquio entre ela e a mulher, bem como da resposta que esta lhe dá em seguida, já bem reforçada com a expressão que grifamos "nele não tocareis", que não constou do aviso ou conselho de Deus. Deus não lhes dissera que "não a tocassem"! Eva demonstra então seu anseio mais íntimo, qual seja, a inclinação já atuante no seu "coração" de provar o fruto, a que resistira até aquele momento. A astúcia da serpente está em ter percebido a tentação a que ela estava se sujeitando e estimulado a prática do ato vedado com uma alternativa falsa, uma mentira, de que adviria a grande recompensa de "sereis como deuses"! Tanto é assim que imediatamente os efeitos da indução aparecem em Eva:
"A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que era, esta árvore, desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o a seu marido também, e ele comeu" (Gn 3,6).


A conseqüência do ato não tardou, infiltrando-se a morte como um dos elementos integrantes do mundo criado, por ato de livre opção e responsabilidade do Homem. Todos os demais imperativos impostos (Gn 1,28; 3,16.18-19) até mesmo à própria natureza (Gn 3,17-18), não traziam em si mesmos conseqüências advindas de sua violação ou descumprimento como aqui. Interessante que nenhum deles depende da vontade humana para se formarem, ou se cumprirem, ou se manifestarem, ou se concretizarem; e, apesar da rebeldia ocorrida permaneceram ainda integrados à natureza do Homem, cumprindo a sua função. O Homem rompeu com Deus; mas, Deus se manteve o mesmo, não rompendo seus desígnios para o Homem, e, apesar de todas as funções humanas sofrerem a deformação advinda da perda do centro gravitacional, pelo mau uso da liberdade que lhes dera, nem por isso a retira. O Homem continua sendo objeto de cuidados de Deus:
"Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu" (Gn 3,21).


Deus nada modifica! Toda a estrutura fundamental da Criação permaneceu em si intocável, se bem que as maldições subseqüentes à serpente e à terra acarretam sério descontrole e desequilíbrio advindos do rompimento pelo Homem. Quando o narrador declina as maldições nada mais faz que significar uma imensa limitação ao controle absoluto do Homem (Gn 3,14-19). A esse ato de rompimento do Homem com os desígnios de Deus é que se denomina PECADO ORIGINAL, por ter sido a "árvore", a "fonte", a "origem" de todos os males e de todos os outros pecados, ou causa principal. Percebe-se facilmente que todo o desequilíbrio da natureza e até mesmo as diferenças climáticas têm a sua "origem" e a sua causa naquele "pecado". Também por ele toda a natureza humana, trazendo sérias conseqüências como a guerra, o terrorismo, o assalto, as rixas, as bebedeiras, o sexualismo desordenado, as doenças etc.. Por causa da maldição da terra, até mesmo as diferenças climáticas, chovendo copiosamente em algumas regiões e não chovendo de forma alguma em outras, todo e qualquer desequilíbrio é fruto do primeiro ato livremente praticado pelo Homem, o ato de rompimento com Deus, dando assim livre curso à morte. Para que ela atuasse era necessário que isso acontecesse, e aconteceu.

GÊNESIS - A CRIAÇÃO - Deus e o Homem

4 - DEUS E O HOMEM
    Desde a origem estabeleceu Deus um distinto e profundo relacionamento, e singular convívio, com o Homem. Manifesta-se desde então ora como estreita colaboração mútua ora como profunda comunhão de vidas e intimidade bem familiar. Em qualquer caso, porém, ocupa o Homem uma posição ímpar de colaborador e coordenador da Obra de Deus, pelo que se pode dizer ser ele o catalisador da Criação. É que apesar da perfeição que coroa cada ato criativo particular ou conjunto de Deus, há sempre presente uma demanda nas coisas criadas, a exigir um ordenador comum e inteligente - O HOMEM, "imagem e semelhança de deus" (Gn 1,26). É o caso da mescla em que se nos apresenta a natureza: tudo misturado e esparso, gêneros e espécies, a compor determinado ambiente. Cabe ao Homem separar, ordenar e semear conforme o consumo, separando, ordenando e semeando por gênero e espécie, função essa bem destacada na ocasião:

"No tempo em que Iahweh Deus fez a terra e o céu, não havia ainda nenhum arbusto dos campos sobre a terra e nenhuma erva dos campos tinha ainda crescido, porque Iahweh Deus não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar o solo" (Gn 2,4-6).


Deus tudo criara com aptidão imanente para germinar e propagar-se. Além disso, oferecia a chuva, cabendo ao Homem o cultivo do solo. Estabeleceu-se então entre ambos, Deus e o Homem, verdadeiro consórcio de tarefas, um "co-múnus", uma comunhão num primeiro relacionamento: Deus propiciava a chuva, e o Homem oferecia o seu trabalho. Ao Homem cabia cultivar o solo, eis um dos motivos imediatos da sua Criação, e ainda o deslocamento dele para outra situação em nova dimensão ou novo estado de vinculação relacional com Deus:


"Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em sua narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente." / "Iahweh Deus plantou um Jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara... Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para o cultivar e guardar" (Gn 2,7-8.15).


É uma maneira diferente de dizer a mesma coisa já dita com outras palavras: Ao "insuflar em suas narinas o hálito de vida" Deus cria o Homem "a sua imagem e semelhança" e ao "colocá-lo no Jardim que Ele mesmo plantara" modifica a sua situação e o distingue dos outros seres já criados. Criando o Homem para cultivar o solo, não havia a necessidade de lhe preparar um local especial para aí o colocar, a não ser que se pretenda evidenciar a existência de um relacionamento especial preparado pelo próprio Criador. E, tendo sido preparado e ordenado pelo próprio Deus, só pode ser uma maior aproximação de ambos, Deus e o Homem, o que traz para o último uma profunda modificação em seu estado, elevando-o a um relacionamento sobrenatural. Pode-se vislumbrar sem esforço a existência de dois campos de relacionamento entre Deus e o Homem, quais sejam:

      • o primeiro é aquele em que Deus fornece a chuva e o homem fornece seu trabalho no cultivo da terra (Gn 2,5-6); e,
      • o segundo, onde Ele mesmo planta um "jardim" e nele "coloca" o Homem para dele "cuidar" (Gn 2,7-15).
    Há fundamental diferença entre ambos, eis que no último aprofunda-se a vinculação entre Deus e o Homem, colocado num jardim especialmente preparado, com a finalidade de "cultivá-lo e guardá-lo" (Gn 2,15). É como se fossem dois mundos que se destinavam ao cultivo do homem. Neste último Deus "passeava à brisa do dia" (Gn 3,8), caracterizando-se com essa sua "presença física" a elevação do estado do Homem a uma verdadeira comunhão de vidas entre ambos, fruto de ato exclusivo de Deus. O Homem de então participa da Criação pelo trabalho e da vida divina pela comunhão sobrenatural com Deus. Estabelece-se assim, desde o início, um convívio mais dependente e íntimo, uma profunda familiaridade. Essa comunhão de vidas foi e é ainda o ápice de toda a Criação, percebendo-se já o grande privilégio conferido ao Homem, tratado e considerado em ambas as dimensões como o único centro gravitacional da atenção generosa, amorosa e objetiva de Deus. Por causa disso é que Adão "dá o nome" a todas as criaturas (Gn 2,20), eis que nomear biblicamente significa ser dono:

"... chamei-te pelo teu nome: meu tu és" (Is 43,1).


Desde essa integração e relacionamento comum apresentaram-se os vários elementos indissociáveis e que compõem a natureza humana e se destinam à consecução de um desenrolar antecipadamente elaborado, planejado e estabelecido, apesar de profundamente livre. Uma espécie de plano geral, tal como uma obra "inteligente e pensada", elaborado pelo próprio Deus, no qual o Homem se torna participante ativo e consciente. Goza então da glória e da felicidade de uma vida em estreita comunhão, intimidade e familiaridade pessoais com o Criador. Estabelece Deus com o Homem, pessoa a pessoa, um "consórcio de tarefas" (Gn 2,5-6) e uma "comunhão de vidas" (Gn 2,7-15).
A partir de então Deus sempre quer manter viva e dinâmica essa intimidade, familiaridade e comunhão de amor com o Homem, sua Criação predileta, a quem destinou toda a Criação:


"Deus abençoou-os e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra" (Gn 1,28).


Recebe o Homem diretamente de Deus toda a Criação. O tom imperativo da entrega denota toda uma dinâmica em que se fundará a atividade humana e a íntima relação entre Deus e toda a humanidade. È a linha de toda a História. Este desígnio de Deus é o mesmo até hoje, e será o mesmo até o fim dos tempos, na culminação de toda a Obra. Nada, nem mesmo qualquer ato humano, pode alterar ou perturbar a realização dos Planos de Deus, em si; pode perturbar apenas o recebimento dos benefícios, retardando-os apenas quanto ao próprio Homem e à Criação, na História: A Criação é um ato irreversível de Deus.

24 de maio de 2011

GÊNESIS 3 - A Criação


3. O HOMEM
    No relato bíblico da Criação registram-se as operações da Palavra de Deus enquanto criava. O "Disse Deus" evidencia o impulso inicial criador e a expressão "E Deus viu que era bom" caracteriza cada novo estágio completo, criado. No segundo dia tal expressão não aparece, eis que aquela operação só será completada no princípio do terceiro dia, ocasião em que se completará o mecanismo das águas e a delimitação com a terra seca, circunscrevendo-a.
    Depreende-se da própria narrativa que tudo aquilo que Deus faz é perfeito, principalmente por ser de sua própria natureza e essência fazer o que faz perfeito. Descabe, portanto, a expressão "viu que era bom" sistematicamente repetida à perfeição da obra que Deus cria, ainda mais quando ela não aparece quando da criação do Homem, sua Obra-Prima:
"Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra" (Gn 1,26).
Aí está: Deus cria o Homem "à sua imagem e semelhança" e como tal tendo poder sobre toda a Criação:
"Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra’. Deus disse: ‘Eu vos dou todas as ervas que dêem semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dêem semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas’, e assim se fez. Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom. Houve uma tarde e um manhã: sexto dia" (Gn 1,27-31).
Num só lance o narrador finaliza o último dia de Criação, o sexto dia. Nele criou Deus "os animais domésticos, répteis e feras segundo a sua espécie" e "Deus viu que era bom". Porém, após criar o Homem não diz o mesmo, "não viu que era bom"; mas, após cuidar da alimentação do que foi criado nesse último dia, "Deus viu tudo o que tinha feito: e tudo era muito bom". Só se pode concluir daí que Deus verificava se tudo "era bom" para o Homem, para quem Deus tudo criava. Um comparação facilitará a compreensão: é tal como sucede a um profissional, ao selecionar material e ferramentas para fazer uma mesa de madeira. Ao selecioná-los, um a um, vai dizendo de si para si mesmo ser bom o que separa, bom para a finalidade que busca, - a construção da mesa de madeira: separa o martelo e ao separá-lo "vê que isso era bom"; separa os pregos e ao fazê-lo "vê que eram bons"; separa a madeira para os pés e "vê que era boa"; separa as tábuas do tampo e da mesma forma "vê que eram boas"; tudo o que separou era bom para a mesa que queria construir; e, ao concluí-la mira toda a mesa pronta e "vê que ficou muito boa". É essa a imagem que se irradia de toda a narração em análise.
A expressão "e Deus viu que era bom" (1,4.10.12.18.21.25 e 31) traduz que tudo foi criado para o homem, a ele amoldado e entregue servindo-lhe até mesmo de alimento, cumprindo-lhe seguir o planejamento em função ordenadora, sempre em vista da finalidade de tudo e de cada coisa criada. O Homem é um auxiliar de Deus, um consorte com função executiva, feito para conviver com Deus, sua Imagem, sucedendo-O e secundando-O. Veio de Deus, REFLETE DEUS, devendo com Ele conviver e compartilhar, qual seja, vivendo por, com e para Deus. Por ser Imagem de Deus pode conhecê-lO, bem como as Suas leis.
Visivelmente Deus trata o homem desde a sua criação com carinho todo especial, expresso pelo ato de amoldá-lo Ele mesmo com as Suas Própria Mãos, com arte e afeto especiais, como um oleiro molda amorosamente no barro o objeto que cria:
"Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente" (Gn 2,7).
O Homem recebe de Deus o "hálito de vida e torna-se um ser vivente", trazendo em si a vida advinda do íntimo de Deus: o Homem tem Vida Divina em sua natureza de barro, em sua matéria. O Homem é a Matéria Divinizada. Nasceu diretamente de Deus, é Imagem de Deus, "reflete Deus", tal como uma imagem reflete aquilo que representa, tal como o reflexo de um espelho. O Homem, neste estágio da Criação, se identifica a Deus pelo domínio sobre ela e reflete a Santidade de Deus por sua integridade pessoal, por isso a "semelhança" e a "imagem".
Para o hagiógrafo, sem Deus o Homem nada é. Não passa de um viajante que trafega sem direção, sem caminho certo, um navegante que navega sem rumo. Sem Deus o Homem não encontra o seu trajeto, não parte nem chega. Perde-se em sua realidade existencial, sem finalidade, desligado de si mesmo por não se encontrar em Deus, de onde veio, para os fins e desígnios que lhe foram traçados por Ele. Ocupa um lugar privilegiado no quadro existencial da Criação e sem Deus fica deslocado gravitacionalmente, não girando em torno do eixo certo. Só em Deus pode se encontrar e se orientar, por ter vindo diretamente dEle. Também, ao narrador não ficou encoberto que na natureza criada existem leis ordenadoras das coisas e dos seres criados. Porém, necessitam elas da ação inteligente e catalisadora do Homem para melhor se ordenarem ao seu fim específico e desdobrarem melhor as suas possibilidades ou potencialidades naturais. A Obra da Criação traz em si mesma o seu próprio ordenamento com a fixação de leis próprias, eficazes, imanentes. Mas, centralizam-se no Homem, cujo desenvolvimento supõe a aptidão de ocupar o seu lugar no quadro vivo. É que tudo tem uma função peculiar, obedece determinações específicas e satisfaz até mesmo um conjunto sistemático e dinâmico. Tudo é segundo a finalidade material e orgânica, total e parcial, de toda a construção impressa, ordenada e governada por Deus. O Homem iria conduzir tudo a uma eficácia ideal, mediando entre as coisas, as criaturas, e Deus. O Homem que é matéria e ao mesmo tempo sopro de Deus seria o encontro de ambos. A expressão divina da matéria, eis o Homem, "imagem e semelhança de Deus" e, também, "barro", "pó". O Homem é a divinização da matéria criada, a expressão máxima da Criação, sem o quê, a Criação para nada serviria, sem nenhuma finalidade. É no Homem que a própria natureza das coisas se encontra consigo mesma e se realiza em plenitude material.
Criação que é uma dádiva de Deus, um transbordar do amor em ato divino. Ato criador, dom que se irradia em matizes infindos; uma dinâmica que faz acontecer, desenvolver e ser a vida pululante e bela; uma realidade que se fundamenta na intimidade de Deus e explode no Homem a "submeter e dominar" (Gn 1,28) a terra e a todos os seres criados, a tudo ordenando conforme as leis que lhe são próprias. Leis que descobre como emulsão das próprias coisas e seres criados. É do Homem o universo todo, assim Deus o destinou. Não apenas isso. Estabeleceu também um modo particular de convívio, um relacionamento específico, especial, chamando-o a uma vida mais íntima e partilhada familiarmente.

21 de maio de 2011

GÊNESIS 2 - A Criação


2. A CRIAÇÃO
    Para ele nada do que existe, existe sem Deus; no princípio, tudo foi criado por Deus e caminha inexoravelmente conforme os desígnios de Deus, sem mistérios e sem complexidades, com a simplicidade inspirada por uma fé profunda. Diz apenas e vigorosamente que tudo começou a partir do impulso propulsor e ordenador da Palavra de Deus, mostrando-O assim onipotente, destacado da Criação, não se confundindo com Ela:
"Deus disse: ‘Haja luz’ e houve luz" (Gn 1,3).
Deus começou a criar afastando as trevas e criando a luz, para poder ver a obra em andamento e aparecer como estava ela sendo feita, em virtude da sua concepção rudimentar e ainda antropomórfica. Quando amanhece, parece-nos à primeira vista que a "luz do sol" precede a "luz do dia", como se distinguissem. Sabemos que não, a "luz do dia" é a "luz do sol", mas ao narrador, que não o sabia, havia a distinção tal como se percebe a olhos nus, sem instrumentos, e sem o menor conhecimento científico. Não sabia ele, nem poderia saber, que a luz do sol leva aproximadamente oito minutos para atingir a terra, em virtude do que a ele pareciam coexistir ambas, distintas e separadas. Por isso, na sua concepção, Deus a cria antes de criar o sol, qual seja, melhor dizendo, independentemente da criação dele. Criou "a luz" erradicando "as trevas" (1,2), facilitando assim a explosão da vida e do calor desenvolvida pelo "Espírito de Deus" (1,2). Daí então, a Criação se desdobra vertiginosamente, em seqüência culturalmente lógica para o narrador e em ordem sistemática delimitada em espaços uniformes de tempo, "em dias", conforme Deus pronunciava "Sua Palavra" ("...e Deus disse...", "...e Deus chamou"...):
"Deus chamou à luz ‘dia’ e às trevas ‘noite’. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia" (Gn 1,5).
O mundo de então era concebido como um grande volume cheio de água, onde tudo já se encontrava confusamente disposto, que Deus vai formando e ordenando, tal como se fora um "feto numa placenta":
"Deus disse: ‘Haja um firmamento no meio das águas e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento ‘céu’. Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia" (Gn 1,6-8).
Desconhecendo as leis físicas da evaporação da água, da formação das chuvas, e vendo-as cair, supunha que tanto havia águas no céu como nos mares, tal como se "vê" a olho nu, único instrumento disponível:
"Deus disse: ‘Que as águas que estão sob o céu se reunam numa só massa e que apareça o continente’, e assim se fez. Deus chamou ao continente ‘terra’ e à massa das águas ‘mares’, e Deus viu que isso era bom" (Gn 1,9-10).
Delimitou Deus a terra e desse modo separou-a dos mares. Estavam assim preparados os ambientes para a criação, geração e propagação dos vegetais, ervas e frutos, com o que se daria a erradicação da aridez da terra virgem:
"Deus disse: ‘Que a terra verdeje de verdura: ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem sobre a terra, segundo a sua espécie, frutos contendo a sua semente’, e assim se fez. A terra produziu verdura: ervas que dão semente segundo a sua espécie, árvores que dão, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia" (Gn 1,11-13).
A vegetação, as ervas e as árvores que cobrem a superfície da terra não são imanentismos dela, mas gerados dela e nela pela Palavra de Deus, fonte de tudo o que existe, nada tendo vindo à existência sem que Ele chamasse:
"Deus disse: ‘Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra’, e assim se fez. Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia" (Gn 1,14-19).
Aquela luz já criada é depositada em receptáculos apropriados a sua distribuição durante a noite e durante o dia. Não são os luzeiros seres absolutos a ponto de se tornarem até mesmo em objetos de adoração por outros povos, eis que são criaturas advindas da Criação de Deus. Receberam de Deus a missão de comando e direção da luz, principalmente para as funções fundamentais da vida, indispensáveis à existência:
"Deus disse: ‘Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, diante do firmamento do céu’, e assim se fez. Deus criou as grandes serpentes do mar e todos os seres vivos que rastejam e que fervilham nas águas segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom" (Gn 1,20-21).
Não bastava criar os seres vivos. Era preciso dotá-los de aptidão para a propagação e perpetuação da espécie. Deus então os fecunda, tornando-os férteis, capazes de se reproduzirem. É a bênção:
    "Deus os abençoou e disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a água dos mares, e que as aves se multipliquem sobre a terra’. Houve uma tarde e uma manhã: quinto dia" (Gn 1,22-23).
    Quando Deus abençoa, fecunda, e é de Deus que os seres recebem a vida e a fecundidade, não da natureza ou do mundo: as vegetações, as ervas e as árvores frutíferas tiveram por fonte criadora o próprio Deus. Ele lhes injeta a faculdade de viver e procriar como aptidão imanente a cada uma e a toda espécie viva, estendendo a bênção à própria terra e ao demais seres vivos:
"Deus disse: ‘Que a terra produza seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e feras segundo sua espécie’, e assim se fez. Deus fez as feras segundo sua espécie, os animais domésticos segundo sua espécie e todos os répteis do solo segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom" (Gn 1,24-25).
E, a Criação prossegue inexorável, aperfeiçoando-se sempre mais e mais, em cada novo estádio ou etapa, em cada dia, três obras por dia, caminhando em direção a sua obra prima: a Criação do Homem, o ápice dela, com o que será ultimada e coroada. É de se notar que vários indícios evidenciam a forma poética dessa narração, quais sejam, dentre eles, a repetição sistemática de várias expressões, tais como "Deus disse", "Deus viu que era bom", "Houve tarde e manhã: ...dia", os números com sua significação peculiar na criação em seis dias, nas três obras por dia, no sétimo dia, e a forma ritmada de todo o contexto. Não houve testemunhas nem a escrita havia sido inventada ainda. Daí compreender-se que essa narração, para se manter viva na memória, era assim composta em versos, em virtude de ser declamada sistematicamente, método ainda usado no Oriente para a retenção e divulgação de acontecimentos importantes. Todo o Velho Testamento está repleta de outras poesias, como forma de celebração de fatos destacados na História da Salvação (Gn 49; Ex 15; Nm 23; 24; Dt 32; 33; Jz 5; 1 Sm 2,1-10; Os Salmos; etc.); e, no Novo Testamento destacam-se dentre muitos trechos dos rituais cristãos dos primórdios, o Magnificat de Maria (Lc 1,46-55), o Benedictus (Lc 1,67-79) etc..
Em toda a narração transparece a onipotência e onisciência de Deus, nada criando ao acaso, mas inteligentemente e obedecendo a uma ordem determinada e coerentemente disposta com vistas a um fim deliberado: A Criação do Homem
Fonte - Mundo Católico

GÊNESIS 1 - A Criação


1. A ORIGEM
    O homem é sempre atormentado pela consciência que tem da inexorável morte; morte, que é o término da existência, a revelar-lhe a vida; vida a pulular em vários matizes e formas a revelar-lhe um ordenamento; ordenamento inteligente a revelar-lhe a Criação; Criação a revelar-lhe o Criador - DEUS:
"Sua realidade invisível - seu eterno poder e sua divindade - tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas..." (Rm 1,20).
A ORIGEM é um desafio à inteligência e a existência é um mistério ainda não desvendado. O homem quer conhecer a origem de tudo e a finalidade da existência. Vê que na natureza tudo é cíclico: o dia começa, atinge o seu clímax e termina, para reiniciar de novo em outro dia, sucessivamente; igualmente, as fases da lua; também, as estações do ano a anunciar em cada primavera o reiniciar e a continuidade existencial: novos frutos, novas ninhadas e novos seres. Tudo recomeça. Tudo lhe inspira um começo novo e um fim a vista. Tudo lhe inspira um recomeço após a morte e sente o anseio pela vida eterna. Assim como tudo termina, tudo deve ter um começo. E então o procura, o começo de tudo e a própria origem. Tem a esperança de que o conhecimento da origem de tudo venha a lhe revelar para que existe: só quem sabe de onde vem sabe aonde vai, e a que se destina. Busca então localizar as minúcias tanto físicas como cronológicas da sua origem obscura. Também os contornos e detalhes que desconhece da sua criação, origem e formação. Não só de si mesmo, mas de tudo o mais que existe e o cerca. Mas, até hoje, só pôde conhecer alguns traços ainda indecifráveis e complexos de seu pequenos e esparso percurso histórico, e focalizado nas sucessões cronológicas da sua existência, que se manifestam aqui e acolá, fossilizados e dispersos no mundo por onde passa. A origem propriamente dita, real, permanece-lhe um mistério, um enigma, não conseguindo atingi-la. No âmago de toda a dinâmica existencial o homem é o mistério do homem: não sabe de onde veio e não sabe aonde vai; e, não sabendo disto, nada sabe de si mesmo, nem mesmo o que é.
    Ao narrador bíblico, ao hagiógrafo, não existiu tal mistério insondável e nem lhe preocuparam muitos detalhes e complexidades: para ele a origem e o fim de tudo é DEUS, O CRIADOR DE TUDO O QUE EXISTE:
"No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo. O Espírito de Deus pairava sobre as águas" (Gn 1,1-2).
Seus conhecimentos, "sua ciência", eram delimitados por aquilo, e somente por aquilo que lhe informavam os sentidos nus. Não possuía telescópios nem microscópios, desconhecia qualquer fenômeno físico, químico ou bacteriológico, bem como desconhecia por completo toda e qualquer conquista científica. E, com os parcos recursos de que dispunha, traçou a linha de sua concepção humana da Obra de Deus, culturalmente condicionada ao seu tempo. Nascia assim a primeira "teoria científica" da origem de tudo que o envolvia, profundamente mesclada com a concepção religiosa e doutrinária, condicionada à sua época e mentalidade. Por causa disso torna-se sumamente injusto avaliar a sua teoria ou o seu desenvolvimento com base nas conquistas modernas, exigindo dele conhecimentos que não possuía. É indispensável um deslocar à sua cultura para melhor compreendê-lo, separando-se ainda a verdade religiosa aí mesclada por revelação e inspiração de Deus, já que ninguém presenciou a Obra da Criação. Narra tudo com simplicidade e sem se deixar prender e perder por mitos, superstições, fantasias ou lendas, apesar de estar tudo paradoxalmente mesclado nela. Então, quando diz que "Deus criou o céu e a terra", diz que "Deus criou tudo o que existe", já que era tudo o que conhecia, todo o seu universo, o qual se resumia ao que seus sentidos lhe informavam. Não conhecia nem poderia conhecer as galáxias ou outros astros do sistema solar ou do universo astronômico.

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